EXPOSIÇÃO

Temporada de Projetos 2026

Visitação

16.06 até 06.09.2026

Horário

Terças a sábados, das 11h às 19h; domingos e feriados, das 12h às 18h

Local

Paço das Artes
Rua Albuquerque Lins, 1345 – Higienópolis

Ingresso

Gratuito

Em 2026, o Paço das Artes inaugura a 30ª edição da Temporada de Projetos. Criada em 1996, consolidou-se como um espaço fundamental para a arte contemporânea brasileira, voltado à valorização de produções artísticas e curatoriais emergentes, bem como a consequente reflexão crítica que as acompanha. A iniciativa cumpre um papel essencial no fortalecimento da cena artística nacional, ao incentivar a inserção de novos nomes no circuito institucional e contribuir para a renovação constante das práticas e pensamentos no campo da arte.

Para a edição de 2026, foram selecionados três projetos artísticos e um projeto de curadoria. O processo de seleção contou com a participação do júri formado por Alexandre Sequeira, Lívia Aquino, Cecília Bedê e Renato De Cara, curador do Paço das Artes.

PROJETOS ARTÍSTICOS 

Juniara Albuquerque | Estudos sobre ossos 

Acompanhamento crítico: Lucas Dilacerda  

“Estudos sobre ossos” propõe uma investigação sobre a matéria como campo de transformação, memória e afeto. O projeto parte do uso de ossos de animais para a criação de esculturas que transitam entre o natural e o industrial, entre o corpo orgânico e o corpo técnico. Essas esculturas são construídas a partir de gestos que transformam o osso em estrutura e o revestem de uma nova pele metálica.  
A técnica da pintura automotiva, presente em toda a pesquisa da artista, é um saber aprendido com o pai, pintor de carros há mais de trinta anos. As sete esculturas serão apresentadas suspensas por correntes, instaurando um ambiente de leveza e tensão. Pairando no espaço, elas evocam corpos em transição, entre o peso e a flutuação, entre a presença e o desaparecimento. A suspensão é também um gesto simbólico: deslocar o corpo da gravidade, dar-lhe um novo lugar no ar, como quem devolve à matéria a possibilidade de respirar.   
“Estudos sobre ossos” reflete sobre o gesto de revestir, proteger e reanimar a matéria. Ao transformar o resto em permanência, a artista afirma o Nordeste como território de invenção e renascimento — onde saberes técnicos e afetivos se entrelaçam para criar uma poética que pensa o corpo e o tempo como forças em contínua metamorfose.  

Karina Walter | Eu posso me rebelar contra a porcelana 

Acompanhamento crítico: Paula Borghi   

A ideia deste projeto é pensar o corpo domesticado da mulher, corpo este que se cria na casa, dentre os objetos que a rodeia. Um corpo que chega nos limites do suportável e, subvertendo o universo conceitual atribuído às mulheres, se reconstrói a partir das divergências, ou até mesmo do vazio, daquilo que lhe disseram ter valor.  
Nas obras propostas, aquelas criadas com louças de porcelana e meias finas buscam expor e explorar as possibilidades de falar desse corpo.  A começar pela domesticidade, a porcelana acumula atributos como refinamento e delicadeza, podendo chegar à fragilidade. Apesar de sua utilidade, ela pode servir apenas como um adorno para o lar. A louça chega a ser uma representação da mulher “boa para casar”, uma alucinação que vive forte momento de reafirmação. A meia-calça proporciona a construção de tensões com os objetos que ela sustenta, muitas vezes as louças de porcelana. Esgarçada até o limite das suas fibras, a meia sempre cede e obedece. Ela faz-se corpo elástico, pele resiliente que, mesmo com aparente fragilidade, suporta. Em contrapartida as ferragens (porcas, parafusos, ganchos, conectores etc.) presentes nas obras, elementos cunhados como masculino pelo imaginário comum, compõem os “detalhes” que possibilitam o objeto tomar forma. É no domínio e incorporação das ferragens, onde questiona os papéis de gênero.  

Oriana Pérez | La cura para el inmigrante es encontrar nuevos códigos 

Acompanhamento crítico: Nathalia Grilo  

La cura para el inmigrante es encontrar nuevos códigos propõe uma investigação visual sobre identidades em trânsito, tomando a experiência migrante como ponto de fricção entre memória, território e reinvenção cultural. Inserido em um país historicamente formado por múltiplos fluxos migratórios, o projeto reconhece que a chegada de pessoas em situação de deslocamento forçado não inaugura uma ruptura, mas dá continuidade a processos que moldaram — e seguem moldando — a sensibilidade e o imaginário brasileiro. A pesquisa parte da compreensão de que a migração produz um duplo deslocamento: a perda parcial do repertório simbólico do território de origem e a necessidade de elaborar novos códigos de existência no país de chegada. Entre apagamentos e reinvenções, opera-se um campo de subjetividades instáveis, onde o pertencimento é continuamente reconstruído.  

No contexto da atual diáspora venezuelana — uma das maiores deslocações populacionais do mundo, com mais de 7,7 milhões de pessoas fora do país e impactos diretos no Brasil — o projeto articula questões urgentes sobre fronteiras físicas e simbólicas, memórias em risco e formas de vida que se sustentam na precariedade dos deslocamentos. As artes visuais, nesse cenário, tornam-se instrumento crítico para compreender e tensionar esses processos, abrindo espaços de diálogo e de reconstrução Cultural. 

PROJETO DE CURADORIA 

Rodrigo Lopes | As nossas imagens

Artistas: Anderson Feliciano, Eliana Amorim, Pedra Silva, Val Souza   

A memória é aquilo que temos de mais precioso. As nossas imagens é uma proposta curatorial de Rodrigo Lopes que reúne obras de Anderson Feliciano, Eliana Amorim, Pedra Silva e Val Souza.  

A chegada da fotografia ao Brasil, na segunda metade do século 19, tornou exclusiva às famílias brancas que aqui residiam a importação de um costume da burguesia europeia: os álbuns de família. Ele é considerado um dos arquivos domésticos mais importantes com o qual o século 20 cresceu. Entre a lembrança e o esquecimento, quando falamos em famílias negras e indígenas, não é incomum que a relação com esse arquivo (e com a própria imagem) seja marcada por uma ambivalência. A exposição discute a noção de álbum como “arquivo branco”: um arquivo em que, no contexto brasileiro, é marcado pelo trauma colonial. Um arquivo em que o acesso foi privilegiadamente garantido às famílias brancas escravocratas que aqui invadiram e residiam. Para bell hooks, discutir o direito à memória negra passa por considerar a fotografia como algo central. A invenção do álbum tem relação direta com o problema de conservação da fotografia. As obras de Eliana Amorim e Val Souza fazem referência ao carte de visite, cartão-de-visita fotográfico que se popularizou no final do século 19, quando a impressão em foto passa a ser feita em papel. No seu vídeo, Pedra Silva nos lembra que as fotos não existem apenas para serem vistas, mas especialmente tocadas, como argumenta Tina Campt no livro Image Matters: Archive, Photography and African Diaspora. Teatro e fotografia se misturam no trabalho de Anderson Feliciano.  Através das histórias orais e arquivos pessoais, sua cena-instalação evoca a dimensão performativa da fotografia. Recordar é um gesto que envolve mente e corpo. A presença dos álbuns e fotos de família na produção de Anderson Feliciano, Eliana Amorim, Pedra Silva e Val Souza é a base para investigar as possibilidades do uso de arquivos pessoais na arte, uma maneira de fabular histórias a partir daquilo que excede no arquivo, como propõe a teórica Saidiya Hartman.

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