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Ensaio

#PaçoEmTodoLugar | texto crítico de Vinicius Spricigo

Tudo que não invento é falso

Arqueologia; o lixo reinventado (por Vinicius Spricigo)

Não sei dizer ao certo do que se trata, mas vou tentar descrever para vocês. De suas entranhas saem lanças pontiagudas que atravessam tecidos embrulhados. As trouxas de tecido também são atravessadas por galhos e pedaços de pau. Entreabertas, essas entranhas expelem suas vísceras, deixando jorrar fluidos de diversas cores. De suas extremidades escorrem fios que voltam a se entrelaçar com o conjunto disforme. A descrição pode dar a falsa impressão de uma matéria amorfa ou algo abjeto. Não é disso que se trata. Absolutamente! Tudo foi recolhido com muito cuidado, meticulosamente catalogado e reunido para o deleite do leigo ou para a observação atenta do especialista. As camadas e manchas espessas formam um conjunto equilibrado, precisamente centralizado nas folhas muito brancas. Os desenhos lembram pranchas que ilustram os textos dos livros de ciência. Aquelas que, quando criança, tentávamos decifrar na escola ou durante o dever de casa. No entanto, aqui não temos o texto explicativo. Falta-nos informações necessárias para a compreensão daquilo que observamos. Talvez por isso a incerteza.

Parece-me que os desenhos de Virgílio Neto são erupções cutâneas das nossas cidades que, na medida em que vão se aglutinando, formam “cascas”. Superfícies que se transformam e se expandem tomando conta do espaço. Esses desenhos inventam uma realidade, mas de uma maneira bem diferente daquela que estamos acostumados a vivenciar. Ainda vai levar algum tempo para eu poder compreender os significados do que se esconde por detrás dessas superfícies que vão se desdobrando pelos desenhos e formam uma enorme constelação de texturas, formas e tons de cinza. Os elementos que eu pude descrever dos desenhos “miúdos” estão por toda parte. Nos quintais e grades dos casarões antigos, nas calçadas e nos fundos das fábricas, nas lojas de departamento e nos terrenos baldios. Também estão na nossa memória, nos registros que guardamos em gavetas de armários da nossa infância ou nas câmeras dos telefones móveis que carregamos nos bolsos. Esses guardados normalmente acabam esquecidos em nosso inconsciente e vão ressurgir involuntariamente quando menos esperamos. Eles aparecem para nós como algo que não podemos reconhecer e despertam muitas vezes como imagens enigmáticas.

Aprendemos a confiar naquilo que lemos e desconfiar daquilo que vemos. Consideramos as fotografias como registros fiéis do real, é verdade, mas precisamos lembrar que elas são resultados de aparelhos que guardam em seu interior códigos lineares. A linearidade do discurso revela, para nós, uma verdade, a despeito de qualquer ambiguidade ou circularidade que as imagens possam conter. Nesse sentido, o conhecimento nos cegou, desconfiamos dos nossos sentidos. Num mundo repleto de imagens, estamos desnorteados e, diante desses desenhos, temos somente este texto ou outros que possam ser escritos, para nos orientar. Precisamos recobrar os sentidos, voltar a ver, se quisermos reconhecer o mundo de imagens que está à nossa volta. Estamos rodeados por aparelhos que produzem e reproduzem imagens: televisores, computadores, máquinas fotográficas e de ressonância, impressoras de todos os tipos. O número de imagens produzidas atualmente é imensamente maior que a quantidade que podemos processar (aliás, a grande maioria delas é processada por computadores com uma capacidade de memória sobre-humana), que dirá interpretar. Talvez por essa razão as ciências contemporâneas estejam desenvolvendo novos métodos para ler as imagens. Assim como os médicos utilizam as imagens para a patologia, e a medicina moderna as tem utilizado cada vez mais para o diagnóstico de doenças, os cientistas “arqueológicos”, no sentido proposto pelo filósofo Vilém Flusser, devem, assim como faz o artista, reunir e catalogar os sinais e os sintomas do mundo em colapso em que vivemos.

Nos anos 1970, Flusser já chamava nossa atenção para um dos “chavões” da nossa época. Para ele, a ideia de sociedade de consumo era uma falácia. Somos incapazes de consumir tudo aquilo que produzimos. A sociedade da abundância é também aquela do lixo, e esses restos “inconsumíveis” e detritos transbordam nas extremidades quando não podemos mais escondê-los. Segundo o filósofo, somos condicionados por esse lixo que não está presente “deliberadamente”, pois foi recusado, recalcado e esquecido. A arqueologia, a pesquisa do lixo, nas palavras de Flusser, podem nos fornecer ferramentas para escavarmos as superfícies criadas por Virgílio Neto, bem como para catalogar e organizar e dissecar os seus “imbróglios”, mas também para nos livrarmos do condicionamento das imagens esquecidas e, com isso, talvez seja possível recuperar e interpretar os seus sentidos mais profundos. Eis a tarefa para uma arqueologia das imagens.

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