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Paço das Artes
Av. Europa 158
Jardim Europa
CEP 01449-000
São Paulo/SP, Brasil
T 11 2117 4777 r. 413/414

Evento

Paço das Artes apresenta CARNIÇA

Audioficção de Danislau Tb

ABERTURA
03 dezembro, 2016 - 20h00
VISITAÇÃO
Paço das Artes no MIS | Grátis
O Paço das Artes --instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo-- lança no dia 3/12 o espetáculo CARNIÇA, de Danislau Tb, no MIS, onde está sediado atualmente. A entrada é gratuita.

CARNIÇA é o trabalho mais recente do vocalista da banda Porcas Borboletas, na estrada há mais de 16 anos. Paralelamente à carreira de músico, Danislau Tb tem atuado nas mais diversas frentes da pesquisa em torno da linguagem: lançou dois livros ("O herói hesitante" e "Hotel rodoviária"), escreveu e dirigiu algumas performances, foi colunista de jornal. Atua como professor e pesquisador de literatura.

O espetáculo é uma audioficção que apresenta a história de dois personagens, Carniça e Natanael, habitantes do submundo do crack. Ambos amam a mesma mulher, Doraluce. O conflito entre eles envolve a família, lideranças religiosas (pastores neopentecostais delirantes) e um apresentador de TV.

No palco, Danislau desenvolve a narrativa por meio de uma live performance em que interage com dez vídeos projetados numa espécie de cinema ao vivo e é acompanhado pela Carniça Band, que é formada por Nath Calan (vibrafone, bateria e percussão), Moita Mattos (guitarra) e Filipe Franco (teclados). 

Cada vídeo corresponde a um capítulo da história e as projeções são dirigidas por Caio Mazzilli e Filipe Franco (Panama Filmes).

O resultado é uma obra de arte sui generis, capaz de propor uma linguagem original e, ao mesmo tempo, jogar uma nova luz sobre a inadiável discussão a respeito do consumo de crack em nossas cidades.

O disco de CARNIÇA (independente) já está disponível em todas as plataformas digitais e estará à venda no dia da apresentação:
SERVIÇO
CARNIÇA | DANISLAU TB

QUANDO: 3/12 (sábado), às 20h
ONDE: Museu da Imagem do Som (MIS) – Auditório (170 lugares)
REALIZAÇÃO: Paço das Artes
ENTRADA GRATUITA
(36 minutos | 10 anos)

Paço das Artes no MIS
Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo/ SP; tel.: (11) 2117-4777
Fale conosco: pacodasartes@pacodasartes.org.br
www.pacodasartes.org.br
http://mapa.pacodasartes.org.br

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Depoimento do artista

“Eu morava no bairro Santa Mônica, em Uberlândia, e era vizinho de um monte de menino que vivia na rua, andando de um lado pra outro com aquele movimento malandro, arrastando o chinelo de lá pra cá, produzindo um som com a fricção das havaianas sobre asfalto. De vez em quando me deparava com a imagem da polícia dando uma geral nesses rapazes, ações cinematográficas, a estátua formada com o corpo de frente pra parede, as mãos na cabeça e as pernas abertas. Apesar de todo o problema social e tudo o mais, eu percebia a presença desses boys como um verdadeiro reinado. Coreografia eterna, construída como improviso. Na minha observação desse movimento, acabava sempre percebendo mais o estético do que a suposta desgraceira vivida por aqueles meninos e meninas envolvidos pela fumaça do crack.

Teve um dia em que eu e meu parceiro Ricardo Ramos comparecemos a um programa da televisão local. Programa ao vivo. Tocamos de improviso algumas canções, entre uma e outra notícia veiculada pelo programa. Nessas notícias, eu reconhecia os meninos do meu bairro. Entrando no porta-malas das viaturas policiais com o rosto encoberto pela camiseta. Eu estava ao vivo, com uma guitarra na mão, muito perturbado - carisma zero - observando o contraste entre essas duas imagens: a primeira, dos meninos reinando na rua, curtindo gloriosamente a liberdade; a segunda, a dos meninos na TV, gestual de animais encurralados. Percebi que uma imagem não tinha muito a ver com a outra.

Daí pra fazer o Carniça foi um pulo. Gravei o material sozinho, no meu home studio, incorporando epifanicamante os personagens que vinham surgindo. Essas duas imagens aparecem no disco: o Carniça das ruas e o Carniça apropriado pelo jornalismo sensacionalista. Qual imagem corresponderia à realidade? Acho q nenhuma das duas. Talvez, no fundo, o que o disco queira levantar seja uma outra questão: até que ponto é possível conhecer alguém?"

MARCÍLIO LUCAS, professor de Sociologia, comenta o CARNIÇA

"Ao se deparar com CARNIÇA, o que pensar que vem por aí? Melhor nem tentar adivinhar: Carniça vai te pegar despreparado de qualquer maneira. Neste trabalho, permanece um traço marcante dos trabalhos de Danislau: a vivacidade ao absorver o eterno do transitório, o poético do histórico. Seu foco na trivialidade mundana faz aparecer os lugares onde a história real é feita, antes de ser representada. Postos de gasolina, barracos mal arrumados, lanchonetes semiabandonadas, pátios de escola e as ruas da cidade. Eis os locais que Danislau costuma percorrer, eis a matéria prima que costuma deglutir, para nos fornecer um conjunto de imagens envolventes, por serem, ao mesmo tempo, claras e inebriantes.

Danislau nos apresenta a sujidade das ruas, mas não o faz por meio de uma apologia da escória. Ele não embarca na marginalidade convencional de simplesmente afirmar a “beleza do sujo”. O autor de CARNIÇA é mais engenhoso e, a partir desse ambiente pesado, consegue nos brindar com imagens marcantes, revelando a sensibilidade de alguém para quem nada que é humano é estranho. Como bom “homem do mundo”, no sentido baudelairiano, Danislau é apaixonado pela compreensão sutil do mecanismo moral que nos rodeia. E, para tanto, em CARNIÇA, vale-se da estratégia perspicaz de fazer poesia mostrando a miséria do mundo pela ótica particular de seu protagonista. Machado de Assis teve a grande de sacada de apontar o ponto de vista de um defunto como privilegiado, pois a sua posição além-vida garante o desprendimento, a franqueza e o desdém necessários para por à vista a mediocridade e as vacilações humanas. Danislau provavelmente não discordaria desse procedimento, mas nos oferece outro ponto de vista não menos estratégico: o do abjeto, o de Carniça, livre das hesitações geradas pelo medo de perder".


LUIZ GABRIEL LOPES, compositor brasileiro, comenta o CARNIÇA

"audiolivro, radioarte, folhetim infanto juvenil. com seu infalível lirismo de rodoviária, destilado pelas estradas que ligam Uberlândia aos mundos interestelares & intraterrenos, Danislau ataca novamente como dramaturgo da pós música, germinando imagens sonoras de uma tragicómica narrativa encarnada na figura de Carniça, um fedorento anti-herói (alter ego?) que vagueia nas mãos de uma horda de caricatos algozes. numa trilha filiada aos Tubarões Voadores de Arrigo Barnabé e à chinesa videomaker de Fausto Fawcett, cruza de Haroldo de Campos com Sérgio Mallandro, Danislau cria um complexo híbrido imagético-sonoro, que ecoa os clássicos da Coleção Vagalume, as vedetes policiais da TV evangélica & os experimentos da eletrónica-punk-naif, com a eloquência de um desembolado literato de cursinho pré-vestibular. a professora do Charlie Brown encontra João de Santo Cristo num karaokê, rola uma química e não tem errada: Danislau é o rei da resenha, um Garrincha Leminskiano, bibliográfico & avacalhado na responsa. Epidérmico cronista dos imundos submundos de latinoamerica, nos presenteia nesse entre-formato com mais um golaço pra constar nos célebres autos de uma literatura tão vanguardista quanto misteriosa. damos graças! seja bem vindo Carniça: o seu destino é ser star".

ENZO BANZO, compositor brasileiro, escreve sobre o CARNIÇA

"Danislau está nu. Só a carne. Só a Carniça. Quando tira a roupa, algo se revela. Danislau se revela. Em Carniça. Por completo. Na audioficção, Danislau conjuga a difícil equação de se abordar uma temática social. Sem cair no pieguismo, no didatismo, no ensinamentismo. Essa porcaria que está aí na nossa frente e para a qual, comumente, fechamos o olho, ou melhor, tampamos o nariz. A rasteira de Danislau é de forma e conteúdo, vai fundo. E, partindo do retrato social, chega na profundidade do humano. Por trás de Carniça está Luiz Henrique, está a criança, está a doce Doraluce.

O interessante de Danislau - e isso nasce com sua faceta de escritor - é seu poder de ser inventivo e comunicativo ao mesmo tempo. Danislau não fala de um outro mundo da cabeça do poeta. Fala desse mundo aí mesmo, que passa na rua, que passa na TV". 
Danislau Tb como Carniça

Fotos: Jonas Tucci

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